Jonal Verde
 

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O GRANDE INVERNO CIVILIZACIONAL
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A globalização neoliberal com base nos mercados livres e comandada pelas grandes corporações transnacionais agrícolas, industriais e de distribuição, por sua vez, controladas pelos mercados especulativos financeiros globais, está a produzir alterações socioeconómicas e ambientais profundas em escala global.

A consequência mais imediata é o desmantelamento das actividades de carácter local, agricultura, indústria, e distribuição. Tudo isto com o apoio explicito dos governos e o apoio implícito das populações que ainda não perceberam que o seu modo de vida está a ser subjugado.

O controlo das corporações pelos especuladores financeiros globais teve como consequência, a transferências das suas responsabilidades sociais e ambientais para os governos, ou seja, para o povo, enquanto canalizam as suas sinergias para os lucros exigidos pelos especuladores da finança global.

As poucas indústrias de carácter local ou nacional que ainda resistem a esta pirataria global, seguem as práticas das transnacionais abandonando o seu papel social, transferindo as suas responsabilidades para o povo através dos governos, que lhes dão cobertura, sob a forma de emprego precário e subcontratação.

Para maximizarem os lucros as corporações procedem a deslocalizações das suas unidades produtivas para países com mão-de-obra barata ou escrava e sem regulamentações ambientais ou sociais, muitas vezes, ainda recebem vários tipos de apoio dos governos locais que, irresponsavelmente hipotecam o futuro das suas populações pela destruição ambiental e predação dos recursos naturais causados por essas transnacionais piratas. Dessa forma conseguem aumentos brutais de produção e, simultaneamente, redução de custos, para bem dos especuladores globais e para mal da maioria das pessoas e do ambiente.

Assiste-se a uma espécie de hipnose ou deslumbramento colectivo pela oferta de todo o tipo de produtos com preços incrivelmente baixos, à custa da energia barata e abundante. A juntar a isto e para reforçar o seu poder avassalador, estas novas sugadoras do século XXI, adquiriram os grandes meios de comunicação social, e dessa forma controlam, escandalosamente, a informação e a opinião.

As Câmaras Municipais gladiam-se para que os grandes grupos de distribuição construam no seu concelho mais um mega empreendimento comercial, não se preocupando minimamente com as consequências que tal empreendimento vai trazer para as populações. Irresponsavelmente e criminosamente não pensam que todo este fogo-de-artifício dos grandes distribuidores destrói irremediavelmente o comércio de proximidade erguido ao longo de décadas e fundamental para o futuro sem a energia barata e abundante de hoje. Os governos, por seu lado, continuam a compactuar e apoiar os mega projectos das transnacionais sem nunca pensarem no futuro, como aeroportos, auto-estradas e grandes empreendimentos turísticos para os privilegiados.

Este paradigma de desenvolvimento levado a cabo pelos especuladores financeiros globais, como a conivência dos governos, tem levado ao aumento do desemprego ou da precariedade do mesmo, ao brutal aumento das desigualdades e à destruição das classes médias. Só uma pequena faixa da população (gestores e toda uma minoria que controla e mantém o Status Quo), é que vêm o seu nível de vida crescer desmesuradamente.

Perante a evidente perda de qualidade de vida dos cidadãos com este sistema político e social baseado no desperdício, os governos e as elites pensadoras, criaram um mito, e defendem -no com tenacidade religiosa, que é a evolução tecnológica. Não, como seria de esperar, para reduzir o consumo e o desperdício, mas sim, para manter e aumentar os actuais níveis de crescimento do consumo e assim aumentar os lucros dos mesmos de sempre. Para a realização deste prodígio, todos nós analfabetos tecnológicos, teremos que regressar à escola, para frequentar os prodigiosos cursos com duração de dois meses e meio para nos retirar do analfabetismo tecnológico.

Esse novo paradigma, pela voz desses milagreiros de vão de escada, trará a prosperidade e a felicidade para todos. Finalmente, livrar-nos-emos dos velhos, sujos e duros empregos fabris, pois os escravos asiáticos farão para nós, de forma barata, os produtos que tanto necessitamos e adoramos e que caracterizam o nosso modo de vida moderno. Enquanto nós, criadores da tecnologia e da inovação, prosseguiremos sentados frente ao computador (criado por nós e fabricado pelos escravos asiáticos), criando e inovando e vivendo felizes para sempre.

Como é fácil de prever, tal paradigma de desenvolvimento redundará, a curto ou médio prazo, num grande fiasco, a exemplo do que aconteceu com a onda das tecnológicas dot-com nos finais dos anos 90 nos EUA.

Todo este festim de desperdício é temporário, porque se sustenta na energia barata e abundante. Entraremos a curto prazo num novo ciclo, com energia cara e cada vez mais escassa, toda esta estrutura de longo curso ruirá como um castelo de cartas. Entretanto, todo o nosso sector produtivo e de distribuição de carácter local estará desmantelado, com energia cara e escassa, será muito difícil reata-lo. Entraremos pela certa num longo inverno civilizacional.
autor
José Vaz e Silva
e-mail
data
11-10-2007

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