Jonal Verde
 

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UM MÁ NOTÍCIA E UMA BOA NOTÍCIA
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A má notícia:

O petróleo está a acabar!

Durante cerca de um século de petróleo barato, a humanidade registou um avanço sócio-económico e tecnológico sem paralelo na História. O petróleo barato foi responsável pela revolução industrial, tecnológica e científica, levou a humanidade para a era das comunicações. O avanço é de tal ordem, que as possibilidades técnicas actuais não passavam de mera ficção científica há apenas umas décadas. Talvez por isso, o deslumbramento e auto-confiança é tal, que existe uma espécie de hipnose colectiva que não deixa ver a realidade que anuncia como inevitável o fim próximo do chamado ouro negro e da civilização moderna actual.

A grande maioria dos especialistas dessa área, anuncia que o pico de produção global de petróleo ou já foi atingido ou será até ao final da década. Isto significa que metade do petróleo existente já foi consumido, a metade restante, será mais difícil e dispendiosa a sua extracção, podendo mesmo haver muitos poços que a sua extracção se torne inviável muito antes do seu esgotamento efectivo. Pelo actual padrão de consumo e crescimento, segundo os mesmos especialista, o petróleo esgotar-se-á nos próximos 40 anos. Mas para muitos outros especialistas, esta previsão não tem em conta o crescimento da China, que passará nos próximos anos, a consumir mais petróleo que todas as outras nações juntas, incluindo os maiores consumidores no presente, os EUA.

A confirmar-se este ultimo pressuposto, o petróleo esgotar-se-á muito mais rapidamente do que qualquer previsão até aqui anunciada. Em tal cenário, as consequências serão inimagináveis para a humanidade que, não está preparada para um retrocesso civilizacional. Pura e simplesmente recusamo-nos a acreditar que tal seja possível, cremos sempre que o mercado e a tecnologia, que caracteriza a nosso sociedade de hoje, dará a resposta adequada, e, apresentar-nos-á de uma fonte energética que substitua, na sua plenitude, o petróleo. Mas tal não vai acontecer. Ou a humanidade se prepara para o choque, ou as consequências terão piores efeitos que a peste na idade média. Como o homem nunca se preocupou muito com as futuras gerações e encarou sempre os recursos naturais como se de uma coutada privada se tratasse, não é de admirar esta falta de preocupação reinante.

Para melhor compreendermos a verdadeira encruzilhada em que nos deparamos já “amanhã”, façamos um pequeno exercício de memória: imaginemos que o crescimento industrial da China (fruto do nosso consumismo irracional e irresponsável), continua a um ritmo acelerado nos próximos anos, de tal forma que se torne no maior consumidor mundial, digamos, em 10 anos, nesse mesmo período de tempo, a procura de petróleo já ultrapassou largamente a oferta, que acham que pode acontecer nesse quadro?...

A boa notícia:

O petróleo está a acabar!

O nosso modo de vida baseado no petróleo barato criou um paradigma de desenvolvimento que, alimentado pelo totalitarismo industrial e comercial, se materializa em produção de escala global, resultando daí, produtos com preços artificialmente baixos, porque a matéria-prima e mão-de-obra dos trabalhadores que os produzem não é paga ao preço justo, e a quantidade produzida nessas condições é gigantesca. Tais produtos (descartáveis devido ao seu artificial baixo preço) terão de ser rapidamente transaccionados para que o ciclo de produção se repita, se possível, ainda com menos custos. Para o escoamento rápido dos produtos baratos, as grandes cadeias de distribuição, devido ao seu poder económico e monopolista, usam e abusam do dumping disfarçado de promoções, e ainda, de publicidade extremamente agressiva que induzem o consumidor a comprar, mesmo do que não necessitam, e com esta pressão comercial e publicitária a raiar a indecência moral e ética, são poucos os que resistem a estas “ofertas”, e as consequências são desastrosas: destruição do comercio tradicional e de proximidade (o único com futuro num mundo sem energias baratas), predação dos recursos naturais (não só petróleo, como todas as matérias-primas), poluição global e emissões de gases com efeito de estufa e consequente alteração climática, com consequências imprevisíveis.

Com o fim anunciado do petróleo e, caso não se altere o actual paradigma de desenvolvimento, acontecerá num futuro próximo a queda do nível de vida das massa, redução da esperança de vida, o fim da industria, desemprego e destruição ambiental como herança deste modo de vida predatório.

Com este cenário não nos resta outro caminho que não passe por uma mudança de paradigma de desenvolvimento, com base numa ética de respeito pela natureza e seus recursos. Não mais será possível este consumo louco de recursos naturais. Temos que interiorizar que, para nosso próprio bem e para que os nossos filhos tenham alguma perspectiva de futuro, os nossos hábitos terão que mudar hoje. Porque, o que resta de recursos naturais, fornecedores das principais matérias-primas básicas, com o actual padrão de consumo e desperdício, não chega para todos. Por outro lado, é perigoso e falso pensar que antes do fim anunciado do petróleo surgirá uma nova fonte energética primária capaz de substituir, em toda a sua plenitude, o petróleo barato.

O fim do petróleo é uma boa notícia, porque é uma energia suja e poluente, está mal distribuído pelo mundo, por ele, aconteceram os maiores conflitos do século XX e, se nada fizermos, do século XXI. Por todas estas razões, o seu fim é uma óptima noticia se, individualmente e colectivamente, soubermos preparar o caminho, no tempo que resta, para ajustarmos o nosso modo de vida à nova realidade. Por outras palavras, a vida terá de mudar drasticamente. Trata-se da escolher entre mudança com a luz acesa e transporte motorizado ou mudança com luz apagada e transporte sem motor. A escolha é nossa.
autor
José Vaz e Silva
e-mail
data
05-10-2007

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