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A globalização neoliberal dos dias de hoje, impôs-nos a cultura do hiper-consumo e do desperdício, alimentada pelos grandes interesses corporativos globais, está a ter consequências desastrosas no meio ambiente e nos recursos naturais. Consequentemente, pagaremos com juros elevados, a curto ou médio prazo, essa irresponsabilidade colectiva.
Perante a evidência de colapso ambiental eminente, devido ao modo de vida que a cultura dominante imperialista impôs ao mundo, bem como o fim eminente de importantes recursos naturais que sustentam a demanda desta sociedade, impôs-se a moda do ambientalmente correcto que, supostamente, nos estimula a adoptarmos comportamentos ambientalmente sustentáveis.
Apesar de ter aspectos positivos, esta moda é uma espécie de gato escondido com rabo de fora, pois tem servido para maximizar os lucros dos mesmos de sempre e a mensagem não vai directamente ao cerne do problema, que tem forçosamente de passar por uma profunda mudança de paradigma de desenvolvimento que nada interessa às corporações dominantes, pois implica a redução do consumo nas suas diversas vertentes. A necessidade de um novo paradigma de vida para todos nós, não implica perde de qualidade de vida, antes pelo contrário, teremos é de viver com outros equilíbrios assentes em valores diferentes dos que regem a sociedade hiper-consumista e individualista dos dias de hoje.
Em ensaios anteriores abordei aspectos diversos em que poderá assentar o novo paradigma de desenvolvimento que nos assegurará, no futuro, uma vida civilizada e de qualidade, mas sem os constrangimentos ambientais e sociais que o actual modelo impõe.
Mas o caminho para essa desejável mudança, não poderá ser percorrido sem que incluamos nas nossas prioridades a alteração dos hábitos alimentares importados do imperialismo cultural que a América do Norte espalhou pelo mundo.
Estes hábitos alimentares importados ou impostos pelo imperialismo americano incluem cada vez mais carne e seus derivados na nossa alimentação diária, provenientes da produção intensiva, que caracteriza a indústria agropecuária de hoje.
Esse aumento brutal do consumo global de carne no mundo, tem como consequência, o aumento das árias de cultivo de cereais para produção rações que alimentarão o crescente número de animais para abate que, por consequência, produz um brutal aumento de consumo de água, esgotamento dos solos férteis, desflorestação para criação de novas áreas de cultivo, etc.
Eis alguns dados:
- Para produzir 1Kg de carde de vaca gastam-se cerda de 40 000 litros de água;
- A quantidade de resíduos produzidos por 10 000 cabeças de gado é igual à quantidade de resíduos produzidos por uma cidade de 110 000 habitantes;
- Todos os anos cerca de 100 000 quilómetros quadrados de florestas tropicais são destruídas para a criação de novos solos destinados a alimentar o sector agro-pecuário;
- A quantidade de terra fértil perdida na produção de cada quilo de carne é de 77Kg, nos EUA, mais de 5 000 milhões de toneladas de terra fértil são perdidos anualmente;
Estes são apenas algumas das consequências que a produção intensiva de gado para consumo humano tem para o ambiente. Mas colocam-se outras questões de carácter ético e filosófico que terão que ser discutidas abertamente e sem complexos, nomeadamente, a forma como são tratados os animais nas explorações agropecuárias por esse mundo fora.
A verdade é que os animais são tratados sem a mínima dignidade, vivem as suas curtas vidas em pleno sofrimento, para que nós humanos tenhamos o prazer de nos intoxicarmos diariamente com excesso de proteína animal.
Não temos todos que nos converter ao vegetarianismo, mas temos a obrigação moral e ética de reduzir o consumo de carne nos nossos hábitos alimentares, até por uma questão de saúde própria, bem como, pelo bem-estar animal, porque uma pequena redução do consumo de carne teria um grande impacto no alívio da pressão sobre a produção. Paralelamente, deveremos também exigir que o direito dos animais a uma vida digna seja praticado em todas as explorações, mesmo que isso implique o aumento do preço da sua carne.
Estas linhas constituem apenas um apelo à reflexão sobre do impacto que a nossa escolha acerca do que comemos tem no ambiente, na nossa própria saúde e no bem-estar animal.
Para um aprofundar da reflexão sobre esta temática, sugiro para leitura, dois livros do polémico filósofo da ética Peter Singer: Ética Prática e Libertação Animal. No primeiro livro Ética Prática, o autor dedica um capítulo ao tema animal; no segundo livro, Libertação Animal, Peter Singer, construiu um verdadeiro tratado na defesa dos direitos dos animais e que se tornou numa espécie de bíblia da defesa do bem-estar animal no mundo.
Peter Singer defende nestas obras, entre outras questões, que todos os animais são iguais, levando a questão da igualdade ao extremo, considerando que restringir esta ideia aos seres humanos é uma forma de especismo. Defende ainda que existe uma grande confusão na cabeça das pessoas acerca do que é realmente a igualdade. E defende que se realmente compreendêssemos a igualdade dificilmente não a alargaríamos aos outros animais.
Enfim, é um desafio apaixonante ler este autor, mas estas duas obras, em particular, são de leitura obrigatória para quem se preocupa com a ética, com o ambiente e com os direitos de todos os seres do planeta.
Sugestão de leitura:
Libertação Animal
de Peter Singer
Editor: Via Optima
Sinopse
Desde a sua primeira publicação, em 1975, este livro despertou milhões de pessoas inquietas para o abuso chocante de animais - inspirando um movimento mundial que visa abolir a experimentação laboratorial com animais, cruel e desnecessária, e denunciar a realidade arrepiante das actuais unidades de criação intensiva.
Nesta nova edição, revista e ampliada, da obra que entretanto se tornou a bílbia do vegetarianismo, o filósofo da ética Peter Singer apresenta soluções sensatas e compassivas para aquilo que se tornou uma questão profundamente ambiental e social, tal como moral. Libertação Animal é um apelo importante e convincente à consciência, à justeza, à decência e à justiça, constituindo leitura essencial tanto para o defensor dos animais como para o céptico.
Ética Prática
de Peter Singer
Editor: Gradiva Publicações
Sinopse
Tratando os grandes desafios éticos do nosso tempo, esta obra é de interesse público inquestionável, destinando-se sobretudo áqueles que querem fazer parte de uma cidadania livre e crítica.
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