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A sociedade de hoje, filha do neoliberalismo económico das grandes transnacionais e das máfias financeiras globais, caracteriza-se pelo hiper-consumo e pelo desperdício, numa cultura de super-mercado do descartável e na crença, de tipo religioso, na infinitude dos recursos, numa espécie de direito adquirido que nada o poderá pôr em causa. Tal como os crentes religiosos, relativamente ao seu Deus, esta sociedade do hiper-consumo, nem por um segundo que seja, põe a hipótese da insustentabilidade do sistema, nem toma consciência de que isto é uma dádiva da energia barata que a economia do petróleo proporciona.
Quando nos deslocamos ao super-mercado e compramos, por exemplo, 1Kg de deliciosas mangas do Brasil, não nos consciencializamos que para ali colocar esses frutos, foram consumidas 20 calorias por cada 1 caloria que os ditos frutos fornecem, sem contar com as calorias gastas na sua produção, graças à economia do petróleo que nos fornece energia barata e abundante. Aliás, a sociedade de hoje do hiper-consumo e do desperdício, que os spin doctors ao serviço dos poderosos alimentam, é uma grande bebedeira de petróleo. Mas, como todos sabem, principalmente aqueles que já beberam uns copos a mais, a euforia da bebedeira é efémera e conduz-nos rapidamente à agonia da ressaca. O mesmo vai acontecer com esta nossa sociedade do hiper-consumo e desperdício, que a economia do petróleo ainda alimenta. Pois, sem petróleo e gás natural, ou seja, sem a economia do petróleo, esta sociedade desmoronar-se-á como um castelo de cartas e nada o poderá impedir.
O nosso modo de vida depende de tal forma da economia do petróleo, que dificilmente poderíamos passar uma única hora sem que este estivesse presente: logo de manhã, acordamos ao som de um rádio-despertador, completamente feito de petróleo (quando refiro o petróleo, quero dizer economia do petróleo); para o pequeno-almoço, abrimos um pacote de leite, feito de petróleo, de seguida abrimos um pão e fazemos uma sandes de queijo, o pão feito de cereais da agricultura intensiva e o queijo feito de leite da criação intensiva de gado, ambos completamente dependentes do petróleo; colocamos os livros nas mochilas dos nossos filhos, feitas de petróleo, para que os possam levar para a escola, sendo transportados por autocarro, também este, feito de petróleo e que se move com petróleo, e circulam por cima de estradas feitas de petróleo; abrimos o portão eléctrico da garagem, feito de petróleo; pegamos no nosso carro, feito de petróleo e que se move com petróleo, para nos deslocarmos para o emprego; se trabalhamos num escritório, ligamos o ar condicionado, feito de petróleo e alimentado por electividade, na sua grande parte, produzida por petróleo; sentamo-nos numa cadeira almofadada feita de petróleo; ligamos o computador, também ele feito de petróleo, e enviamos o primeiro e-mail do dia pela internet, uma rede mundial feita de petróleo; escrevemos num teclado, ou com uma esferográfica, feitos de petróleo; imprimimos os documentos com tintas e impressoras feitas de petróleo; a meio da manhã abrimos um pacote de sumo e um lanche embalado em material feito de petróleo; vamos almoçar ao restaurante, que funciona à custa do petróleo; pagamos com cartão de crédito, feito de petróleo; voltamos para o emprego para o turno da tarde, mas só o fazemos porque existe petróleo; ao fim do dia, deslocamo-nos à loja das energias renováveis, para nos instalarem em casa um sistema de aquecimento solar, feito de petróleo; como ainda é cedo, passamos pelo super-mercado, cheio de produtos que só existem porque existe petróleo; regressamos a casa, ligamos a Tv., feita de petróleo, ligamos o fogão, feito de petróleo e alimentado a petróleo; arrumamos a louça, feita de petróleo, colocamo-la na máquina de lavar, também feita de petróleo; sentamo-nos um pouco no sofá, feito de petróleo; tomamos banho com água que é bombeada com petróleo e usamos champô feito de petróleo; lavamos os dentes com escova e pasta feitas de petróleo; finalmente, deitamo-nos num colchão confortável, feito de petróleo, para dormirmos uma noite descansada e, provavelmente, sonhamos com algo que depende do petróleo.
Mas todo este festim está ameaçado pelo excesso de consumo. Durante anos, o esgotamento dos recursos naturais não foi problema, pois eram tão vastos que se julgava que se poderiam extrair infinitamente, mas esta sociedade do desperdício que a globalização neoliberal das grandes transnacionais nos trouxe, tem mostrado nos tempos mais recentes, que o petróleo, gás natural, carvão, urânio, cobre, água doce, etc., estão no limite de extracção. Importa referir, que estamos a viver uma crise com quatro pólos, dois pólos de ordem conjuntural - a económica e a alimentar - e dois pólos de ordem estrutural - a energética e a climática, e todas estão interligadas. Não se pode combater apenas a crise económica sem combater as crises estruturais, pois se tal se verificar, criará graves desequilíbrios com consequências imprevisíveis para os mesmos de sempre.
Nos anos de 1960, precisávamos de metade dos recursos da Terra para atender à procura da humanidade. Nos anos 1980, necessitávamos de todos os recursos da Terra para cobrir a procura da humanidade. No início deste milénio, precisávamos dos recursos de uma Terra mais 40% de outra, que não temos, para satisfazer a procura da humanidade. Se nada mudar, em 2050, necessitaremos de recursos de duas Terras para satisfazer a gulodice da humanidade.
Para combater esta irracionalidade, necessitamos de meios de produção menos agressivos para o ambiente e um consumo mais sustentável, com base em empresas responsáveis socialmente, e não esta pouca-vergonha a que hoje assistimos, em que as empresas se descartam do seu papel social para caminhar no sentido do lucro fácil e rápido, espalhando pelo mundo o padrão de consumo norte-americano ainda mais irresponsável.
Os combustíveis fósseis, que movimentam cerca de 80% do sistema produtivo mundial, têm os dias contados. Ou inventamos energias alternativas em quantidade, ou a bolha do consumo rebentará e a sociedade entrará em colapso em poucos anos. Mas para evitar o colapso social, não basta novas fontes energéticas, é necessário expulsar a pontapé dos círculos do poder, esses feudos mafiosos responsáveis pelo estado do mundo actual, que criaram mecanismos de ordem económica, não para satisfazer necessidades, mas, pelo contrário, para cria-las, com o único objectivo de encher os bolsos dos privilegiados.
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