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Na sequência de anteriores textos em que abordava a crise energética e as suas consequências para o nosso modo de vida, penso ser oportuno fazer uma abordagem, necessariamente breve, às alternativas ao petróleo que a humanidade tem à sua disposição para as próximas décadas.
Esta necessidade advém da grande confusão e desinformação que reina na cabeça da generalidade das pessoas acerca das alternativas energéticas ao petróleo (esta magnífica matéria-prima responsável pela moderna civilização que hoje usufruímos, bem como, responsável pelo cataclismo ambiental que se aproxima), isto, na circunstância da eminência do pico do petróleo. Portanto, não vou abordar esta temática neste texto, no entanto, é muito importante para se perceber o contexto da temática em referência, perceber o que significa o pico do petróleo. Assim, para os mais distraídos, remeto-os para as anteriores “postes” onde poderão encontrar variada informação sobre esta temática.
Convém, desde já, esclarecer o seguinte, quando refiro alternativas ao petróleo, refiro-me a uma escala global. Ou seja, aos 85 milhões de barris diários (valor antes da crise económica global) que, no momento actual, a humanidade consome, na industria, na agricultura, nos transportes e em tudo o que fazemos, de bom e de mau, nesta sociedade de consumo; e não a uma micro escala doméstica ou regional. Porque, não há dúvida nenhuma que é possível construir veículos que funcionam com as mais diversas fontes energéticas. E mais, é possível substituir o petróleo e todos os subprodutos que ele fornece, por matérias-primas alternativas. O problema está na escala, na quantidade e em toda a estrutura global construída e a funcionar com base no petróleo.
A humanidade tem uma tendência natural para acreditar na magia e nos finais felizes e, esta tendência tem-se agravando com o advento tecnológico que a era do petróleo barato nos trouxe. Basta falarmos com alguém na rua para percebermos o delírio da forma como as pessoas encaram este problema da substituição do petróleo. Como é evidente, a realidade é bem mais complexa do que o pensamento delirante da generalidade das pessoas sobre este problema emergente. É sem dúvida, uma tarefa monumental que a humanidade tem que enfrentar nas próximas décadas.
Para agravar este problema, que todos nós teremos que enfrentar num futuro próximo, o crescimento demográfico no planeta não pára. Cada ano que passa há mais 100 milhões de seres humanos em todo mundo, que consumirão a sua parte dos escassos recursos naturais que restam na Terra. Infelizmente, o controlo da natalidade, com implementação mundial, não é politicamente possível e a conservação ambiental não é possível neste cenário.
De seguida vou abordar a temática das energias alternativas ao petróleo actualmente conhecidas e em desenvolvimento e com potencial de aplicação prática. Como é evidente, não vou abordar alternativas teóricas que ainda não foram testadas, como a fusão nuclear (os mais optimistas prevêem 50 anos para a energia de fusão nuclear ter aplicabilidade prática), energia de ponto zero (ZPE) e outras promessas que nem protótipos em funcionamento têm, porque, em termos práticos não existem. Também não vou incluir o gás natural como alternativa, porque em breve este será tão escasso como o petróleo e, com o aumento previsível de consumo desta matéria-prima no futuro, essa realidade acontecerá mais rapidamente do que muitos pensam.
O carvão
O carvão foi o combustível que alimentou a revolução industrial. Inicialmente, foi usado o que se encontrava à superfície, com a sua escassez, surgiram as primeiras minas carboníferas que rapidamente se desenvolveram com o surgimento das máquinas a vapor e contribuíram para o forte desenvolvimento industrial. Mas todo este processo era sujo e altamente poluente e as suas consequências, na saúde e no meio ambiente, não se fizeram esperar, as cidades industriais viviam mergulhadas em nevoeiro constante e a degradação da vida nessas cidades tornou-se insustentável. Quando o petróleo em meados do século XIX começou a ser usado como combustível, foi gradualmente substituindo o carvão como energia primária e, pela sua versatilidade, limpeza (em comparação com o carvão) e valor energético. A ele devemos a sociedade de hoje.
Mas o petróleo é uma matéria-prima de origem fóssil que se encontra no subsolo em quantidades limitadas, quando a sua escassez se tornar efectiva, poderemos ter que recorrer novamente ao carvão de forma massiva para colmatar a escassez de oferta do dito. Porque, segundo a indústria mineira, haverá reservas de carvão para mais de 100 anos a pleno consumo. Pois, é tecnicamente possível produzir petróleo sintético a partir do carvão, mas esta perspectiva não só não é desejável economicamente como seria catastrófica para o meio ambiente e para a humanidade. Ver-se-á.
Portanto, é possível usar as reservas restantes de carvão para produzir electricidade e petróleo sintético (como fizeram os Alemães na 2º guerra mundial), mas com custos elevadíssimos económica e ambientalmente. Não sendo por isso, uma alternativa viável e desejável.
Energia hídrica
A energia hídrica produzida a partir de barragens nos rios, é importante e é um dos métodos mais antigos, testados e fiáveis de produzir energia eléctrica. Não produz dióxido de carbono (só o produz na sua construção), é possível a construção de mega-empreendimentos em grandes rios que produzem grandes quantidades de energia eléctrica, ou a construção de pequenos empreendimentos em pequenos rios para fornecimento de pequenas quantidades energéticas à escala local.
Como inconvenientes, temos o forte impacto ambiental e paisagístico e a dependência das chuvas para alimentar os caudais dos rios. Com as previsíveis alterações climáticas e as suas implicações nos valores da pluviosidade, não se sabe qual o futuro de muitos destes empreendimentos.
No que concerne à energia das ondas marítimas, é uma tecnologia em fase inicial de implementação e, caso a sua tecnologia se tornar economicamente viável, será mais uma fonte energética complementar que nos ajudará a suprir a escassez energética, não será, no entanto, a panaceia que nos salvará.
Hidratos de metano
Os especialistas das questões energéticas estimam que as quantidades de hidrato de metano sejam o dobro de todos os restantes combustíveis fosseis do planeta Terra. Mas, a sua extracção é perigosa, extremamente cara e gasta-se mais energia na sua extracção do que dela se extrai. Portanto, com a actual tecnologia os hidratos de metano não nos servirão para rigorosamente nada.
Despolimerização térmica
A despolimerização térmica foi anunciada a panaceia milagrosa que nos iria salvar da escassez do petróleo e ainda nos livraria dos resíduos que a nossa sociedade de consumo produz, curiosamente, resíduos produzidos, na sua maioria, a partir do petróleo.
O processo usa resíduos que contenham carbono (praticamente tudo o que é produzido com petróleo), para os converter em petróleo, gás e minerais de vária ordem. Tudo isto com uma eficácia energética a 80%, no caso dos resíduos orgânicos, um pouco menos nos restantes resíduos. Portanto, entra lixo sai petróleo. Nada mais fantástico. Mas… pois é existe um mas. Se todo o lixo produzido pela sociedade de consumo fosse para a estas fábricas de reciclagem para ser transformado em petróleo, a quantidade obtida não chegava a 10% do nosso consumo de petróleo convencional. Também para a sua recolha e transporte até às referidas unidades transformadores, é necessário petróleo, o que diminui a eficácia energética. Para além disso, todo o lixo produzido pela sociedade de consumo é proveniente da economia do petróleo barato, quando este escassear e aumentar de preço, também o seu lixo escasseará. Não é tudo mau.
Portanto, a despolimerização térmica é uma excelente forma de reciclagem dos resíduos que todos nós produzimos à custa do petróleo barato, mas não uma alternativa ao petróleo, até porque está dependente deste, embora seja uma tecnologia extremamente importante.
Biomassa
A biomassa tem exactamente as mesmas virtudes e defeitos da despolimerização térmica, nem vale a pena perdermos tempo com isto, em termos de escala, para poder ser alternativa ao petróleo.
Biocombustíveis
Os biocombustíveis são um excelente complemento aos combustíveis fosseis, desde que não sejam produzidos a partir de produtos alimentares e que não sejam usados terrenos agrícolas destinados à produção de alimentos, que não cause desflorestação ou que não agrave esse problema.
Pensar que os biocombustiveis, algum dia, serão substitutos do petróleo, na sua plenitude, é completamente absurdo e irreal e não querer perceber a base do problema.
Energia nuclear
A energia nuclear apresenta problemas irresolúveis resultantes da produção de resíduos radioactivos que serão uma ameaça inaceitável para as gerações futuras. Mesmo que se feche os olhos a esta questão decisiva, não deixa de ser uma solução de curto prazo, uma vez que as reservas do combustível que alimenta as centrais, o urânio, existe em quantidades muito limitadas.
Assim, para bem das futuras gerações o nuclear não poderá ser considerado como hipótese.
Energia solar
Vou apenas considerar a energia solar de conversão activa, como é o caso do fotovoltaico que transforma a radiação solar em electricidade, não referindo outras formas de aproveitamento da energia solar, como é o caso da solar térmica e solar termodinâmica, porque não se enquadram no tema deste ensaio.
A utilização da luz solar para produzir electricidade através de painéis fotovoltaicos, principalmente em pequena escala doméstica, é possível e funcional, dentro de certos condicionamentos, como a existência de sol e o armazenamento da electricidade produzida pelo sistema para o seu uso em horas sem radiação solar, apesar dos avanços dos últimos anos nesta tecnologia. Para além dos condicionamentos referidos, junta-se a limitação do sistema no que respeita ao fornecimento quantitativo, pelos padrões de consumo de uma família de média dimensão, pois dificilmente conseguem responder ao consumo da habitação sem o auxílio da rede eléctrica pública. Para além do referido, há a salientar os custos elevadíssimos da instalação do sistema, que o torna inacessível à generalidade das famílias. Outro factor preocupante, comum a todas as fontes energéticas renováveis, é a completa dependência da economia do petróleo na sua produção, o que limita, bem como todas as outras fontes renováveis, a sua sustentabilidade.
Seja como for, a energia fotovoltaica é de importância fundamental para que num futuro próximo consigamos manter a luz acesa.
Energia eólica
As turbinas colocadas em torres e espalhadas por todas as montanhas por esse país fora, designam-se, como todos sabem, de geradores eólicos, porque são movidos pela força dos ventos para produzir electricidade, é a materialização de uma aposta, acertada e louvável, do actual governo português, para que Portugal diminua a sua dependência dos combustíveis fosseis, importados e em declínio de oferta.
Apesar disso, esta forma de produzir electricidade não está ausente de problemas e condicionantes. Tal como o fotovoltaico, a energia eólica está completamente dependente das condições climatéricas e, pior que isso, está completamente dependente da economia do petróleo para a sua produção e instalação.
Apesar dos problemas e condicionantes já referidos, a energia eólica e todas as restantes renováveis, se conseguirem no futuro próximo que na sua produção e montagem não haja um peso significativo dos combustíveis fosseis, serão certamente as fontes energéticas que alimentarão parte das nossas necessidades futuras.
Economia do hidrogénio
A economia do hidrogénio com base na pilha de combustível ou fuel cell é extremamente sedutora e promissora e poderá ser, de facto e a longo prazo, o combustível do futuro.
Uma pilha de combustível no seu funcionamento combina o hidrogénio com oxigénio para produzir electricidade e água. Poderá ser usada para alimentar as nossas habitações com electricidade, ou alimentar os motores eléctricos dos automóveis do futuro. No entanto, para lá chegar, serão necessários muitos anos de investigação e muitos biliões de investimentos para ultrapassar os inúmeros problemas que no presente se colocam.
O hidrogénio constitui cerca de 70% de toda a matéria existente no universo (pelo menos no que nos está próximo), mas, no planeta terra, não se encontra em estado puro, está ligado a outros elementos químicos, como a água (H₂O), com uma composição química de 2 átomos de hidrogénio ligados a 1 átomo de oxigénio.
Para obtermos hidrogénio em estado puro, é necessário retira-lo de qualquer dos elementos que o possuem (no presente é o gás natural a principal fonte de hidrogénio), mas esse processo é energeticamente nulo, porque, por cada unidade energética obtida será gasta 1 ou mais. Assim, terá que se encontrar uma fonte energética primária e barata para alimentar o processo onde se obterá hidrogénio puro que depois poderá alimentar as pilhas de combustível presentes nas nossas habitações e automóveis.
Ultrapassado o problema da obtenção do hidrogénio puro, surgem os problemas relacionados com o armazenamento, transporte e distribuição, devido à sua baixa densidade, o que significa que o hidrogénio ocupa muito espaço. Para ser usado nos automóveis como combustível terá que ser comprimido a uma pressão de cerca de 700 bar (um pneu de um automóvel está a uma pressão de 2,5 bar) e armazenado no automóvel em tanques pressurizados, o que significa que os nossos automóveis serão bombas circulantes prontas a explodir em caso de falha ou acidente. Quem sentaria o seu filho em cima de uma bomba mesmo que nos garantam que a mesma jamais explodirá? Ainda há outros problemas de difícil resolução, o hidrogénio é cerca de 10 vezes mais inflamável do que a gasolina, qualquer fonte de ignição por mínima que seja provoca a sua inflamação; a chama do hidrogénio não se vê, o que torna o seu combate em caso de incêndio extremamente perigoso; o hidrogénio tem um peso atómico extremamente baixo, por isso, escapa-se com facilidade, mesmo por micro orifícios ou fissuras nas condutas ou depósitos, é muito difícil de conter; é também extremamente corrosivo, o que o torna inadequado às estruturas existentes. Tudo terá que ser construído de raiz, no que respeita a armazenamento, transporte e distribuição.
Por esta e outras razões, que não abordei neste ensaio, dificilmente a economia do hidrogénio será alternativa à economia do petróleo em tempo útil, ou seja, antes que este comece a faltar à crescente procura.
Conclusão
É tempo de deixarmo-nos de acreditar em promessas milagrosas que a maior parte dos anúncios propagandísticos das alternativas ao petróleo e restantes combustíveis fosseis anunciam. Não quer dizer que as energias renováveis sejam inúteis, pelo contrário, devemos é encarar o problema com seriedade, e isso implica, por mais que nos custe, uma mudança profunda no nosso modo de vida num futuro próximo. Poderemos escolher entre deixarmos que os acontecimentos nos apanhem desprevenidos, ou estar preparados para os enfrentar. O preço baixo do petróleo dos últimos meses é extremamente preocupante, porque se deve à diminuição do seu consumo, não de forma consciente e sustentável, mas sim em consequência da crise internacional, e assim, parte dos investimentos necessários no futuro próximo para manter a produção serão anulados, também os investimentos em investigação para novas alternativas não avançarão, poderão também estar comprometidos os investimentos nas renováveis. O que significa que depois da retoma económica a procura aumentará novamente e todo o ciclo se repetirá se a sociedade não souber tirar as devias lições deste que será o último choque petrolífero.
Referências
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Duas pistas para os despistados, James Howard Kunstler;
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A crise do pico petrolífero: no centro da tempestade, Tom Whipple;
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A Espécie Humana já está num dos estágios avançados de extinção! Dalton F. Dos Santos;
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Chegamos ao pico da produção de petróleo? Joshua Clark;
Depois da segunda geração de agrocombustíveis, Silvia Ribeiro;
Do 'Pico do Petróleo' para a 'Transição Um', Ali Samsan Bakhtiari;
É preciso um Projeto Manhattan internacional para superar a era do petróleo, Giselle Paulino, do Instituto Ethos;
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O ensaio geral está acabado, Richard Heinberg;
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O impacto político-económico do pico do petróleo, Rui Namorado Rosa;
O mito da economia do hidrogénio, Dale Allen Pfeiffer;
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Pico petrolífero: as quatro etapas da transição, Ali Morteza Samsam Bakhtiari.
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