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Os recentes acontecimentos relacionados com a escalada do preço do petróleo e dos alimentos básicos, como é o caso do arroz e dos cereais, etc., merece uma profunda reflexão de todos nós, acerca do tipo de sociedade que queremos para o futuro dos nossos filhos.
Com o fim do desastre comunista do bloco soviético nos anos noventa, todos nós, pobres ingénuos, fomos levados a acreditar que, finalmente, a humanidade alcançaria a sua maioridade, materializada numa sociedade virada para as pessoas e construída em função delas. Portanto, numa sociedade sem os constrangimentos impostos pelas corporações estatais ou estados de carácter ideológico e totalitário que caracterizou a guerra fria. Mas, depressa o espaço ocupado pelas ideologias da guerra fria foi apagado do espectro político e social, quando este “matrix”, o grande sonho de Milton Friedman, nos entrou pelas vidas dentro e se nos impôs sem escolha ou alternativa. Estava implementado o pensamento único baseado nas leis do deus mercado, obviamente, dominado pela finança internacional e pelas transnacionais. A febre das privatizações e das fusões invade todo o mundo, tudo é privatizado, inclusivamente o espaço público, claro que, em nome da eficiência ditado pelo mercado. E até o modelo social Europeu é um inimigo que urge abater. Por outras palavras, é necessário acabar com a política ideológica e deixar as decisões para o mercado, esse novo deus que finalmente nos irá salvar.
Mas para que o novo deus pudesse reinar, foi necessário criar as instituições que espalhassem e difundisse, ou impusessem, os novos mandamentos do deus mercado. As ditas instituições foram formalmente criadas nos anos 40 em Bretton Woods, inicialmente, com muito boas intenções, para dar resposta à crise do pós guerra e da grande depressão, mas depressa se tornaram serviçais da finança internacional em prol do deus mercado, são elas: o banco mundial, o fundo monetário internacional e a organização mundial de comercio, esta última, surge mais tarde e com outro nome. A sua acção teve um papel fundamental para que o neoliberalismo económico global se impusesse tão facilmente, através da imposição da desregulamentação do mercado, na imposição de privatizações e na redução das protecções sociais, a troco de empréstimos, em muitos casos a governos sanguinários e sem qualquer representatividade democrática e, dessa forma, comprometer o futuro do país, não tendo este outra escolha senão a cedência às chantagens dos interesses globais. Isto foi feito nos últimos 50 anos em praticamente todos os países do Terceiro Mundo, com consequências dramáticas para os seus povos, na maior parte dos casos.
Depois do controlo das economias do Terceiro Mundo pelas transnacionais e pela finança global, estava dado o primeiro passo no sentido do liberalismo económico global. Reagan e Thatcher, nos anos 80, abriram caminho para o sistema se implementar no ocidente e, com o fim da guerra fria, se globalizar de forma irreversível. Mas é preciso notar que a liberalização dos mercados não é igual para todos, por norma, os poderosos colhem os benefícios e os fracos colhem os custos. Olhem o exemplo da recente crise do sub-prime nos Estados Unidos e que se estendeu ao resto do Mundo, em que a finança mete ao bolso e o estado apaga o fogo.
Tais avanços do neo-liberalismo económico não se conseguem sem custos sociais profundos, principalmente no ocidente e, mais concretamente, na Europa ocidental. Portanto, para evitar os protestos e se calhar, algo mais do que simples protestos das massas afectadas, principalmente da classe média, havia que construir um processo de alienação colectiva que evitasse que as massas contrariassem a evolução. Para isso foi usada uma velha receita muito usada no século XX, no tempo das ideologias, designada por propaganda. Mas há uma grande diferença entre a propaganda de então, e de agora, a sociedade da informação e do hiper-consumo. Portanto, haveria que aproveitar estes 2 aspectos fortíssimos da nossa actual sociedade, para congeminar um adormecimento das pessoas para que estas não contrariassem o processo em curso. Quem pensa na segurança do emprego, ou na futura reforma, perante o último modelo de telemóvel da marca XPTO que a todos os 10 minutos a TV e a Rádio nos incita a comprar e, caso não o façamos, passaremos a fazer parte de uma minoria desprezível que não quer acompanhar o progresso? Essa velha receita, agora com novas roupagens, designa-se de marketing e é usado até à exaustão, nas mais diversas vertentes, por todos os protagonistas deste novo paradigma social, económico e político. E, quando a propaganda não funciona, há o terror psicológico levado a cabo pelos estados e pelas corporações com vista a criar medo mas populações para que estas engulam e calem.
Um exemplo flagrante do efeito desta propaganda é o conceito de marca sim produto não. Este conceito, amplamente conhecido por Outsourcing, não é mais do que entregar a produção de produtos a empreiteiros de baixo custo, normalmente localizados no terceiro-mundo ou em países imergentes onde a mão-de-obra é extremamente barata, ou escrava, e as regulamentações do trabalho são inexistentes. Dessa forma, as grandes corporações, obtêm grandes quantidades de produtos a preços extremamente baixo sem terem qualquer responsabilidade de carácter social no que respeita à produção. Vergonhosamente, gastam biliões de dólares em propaganda para nos convencer, a nós pategos, que a nossa felicidade depende deste ou daquele produto da marca XPTO, que foi produzido em zonas francas por escravos a chicote. Como se não bastasse, as grandes corporações espalham-se como pragas de eucaliptos que secam tudo à sua volta, dizimando os empregos estáveis e arruinando as conquistas sociais e laborais. Portando, o grande sonho de Milton Frimam, está a tornar-se num grande pesadelo para as classes médias e, a prazo, caso não haja alteração de rumo, uma nova ordem igualitária surgirá, com uma divisão das populações em um pequeno grupo de privilegiados, que tudo controlam, e os restantes, que tentam sobreviver.
Mas este festim consumista e anti-ecológico imposto pelos feudos do neo-liberalismo tem um preço elevadíssimo que advém da sua insustentabilidade. Mas não tenhamos ilusões acerca de quem paga a factura.
A este cenário de atrofia social junta-se uma profunda crise energética de carácter estrutural que culminará, a curto ou médio prazo, no derradeiro choque petrolífero, o (dês)conhecido pico do petróleo.
Este termo, que mais parece uma doença ruim, é um modelo matemático usado por M. King Hubbert, em 1956, para prever (com sucesso) o pico de produção de petróleo mos EUA e que se representa por uma gráfico em forma de sino, o pico do gráfico significa que metade do petróleo foi consumido e que a metade restante será extraída de forma mais lenta, difícil e cara.
Atingido esse pico de produção, rapidamente, se entrará na curva descendente que se caracteriza por uma menor extracção e em que a oferta não consegue responder à procura. Portanto, qualquer pessoa que conheça minimamente as “leis” do mercado, sabe que quando um produto é escasso o seu preço não tem teto e, como o nosso modelo de vida está inteiramente dependente deste produto, as consequências da sua escassez e duplicação, triplicação, quadruplicação… de peço, constituirá um dos maiores desafios para a humanidade desde a revolução industrial.
As promessas salvadoras do hidrogénio como energia alternativa ao petróleo não passam de paliativos para esconder a realidade e deixar passar mais algum tempo de alienação colectiva. O hidrogénio não é uma energia primária e, portanto, é necessária uma fonte energética primária para a sua produção, mesmo que a prazo se consiga essa fonte capaz de produzir o hidrogénio em quantidade, há um outro problema inultrapassável no curto tempo que nos resta de petróleo, que tem que ver com a sua baixíssima densidade, que obriga à sua compressão para armazenamento. Ora, seriam necessários 7 camiões, devidamente pressurizados (autenticas bombas circulantes prontas a explodir) para abastecer os postos de distribuição com a mesma quantidade de energia de 1 único camião de gasolina. Realismo, portanto.
Quanto aos bio-combustiveis, é melhor nem falar. Porque é completamente absurdo pensamos que serão uma alternativa realista. Portanto, não há qualquer energia alternativa capaz de substituir o petróleo na sua plenitude, nem haverá nas próximas décadas.
Os protestos pelos aumentos dos preços dos combustíveis são o primeiro sinal de desespero e de impreparação da sociedade para o novo paradigma que se imporá a curto ou médio prazo e, nada poderemos fazer contra isso. A nossa única esperança é que os dirigentes nacionais e mundiais, com o apoio ou por pressão das elites intelectuais, saibam preparar a sociedade para o novo paradigma de desenvolvimento assente na racionalização energética e do consumo e não no desperdício e na energia barata. Se não tivermos dirigentes com visão de futuro – os sinais não são nada animadores – teremos certamente um retrocesso civilizacional de consequências imprevisíveis. Portanto, nós temos responsabilidades, à nossa pequena escala, deveremos preparar-nos para a nova realidade e ter a consciência de que se nada fizermos o futuro dos nossos filhos será negro.
Sugestões de leitura sobre estas temáticas:
-O fim do Petróleo (*****)
De James Howard Kunstler
-Tópicos Para Uma Catástrofe (****)
de Elizabeth Kolbert
-A China Abala o Mundo (*****)
de James Kynge
-O Mundo na Era da Globalização (****)
de Anthony Giddens
-As Ameaças do Mundo Actual (****)
de Chris Abbott, Paul Rogers e John Sloboda
-Falso Amanhecer (*****)
de John Gray
-O Império da Vergonha (*****)
de Jean Ziegler
-No Logo (*****)
de Naomi Klein
-Clube Bilderberg – Os Senhores do Mundo (****)
de Daniel Estulin
-A Democracia e os Mercados na Nova Ordem Mundial (***)
-A Manipulação dos Media (*****)
-Duas Horas de Lucidez (****)
de Noam Chomsky
-A Globalização da Pobreza e a Nova Ordem Mundial (*****)
de Michel Chossudovsky
-A Filicidade Paradoxal (em leitura)
de Gilles Lipovetsky
-Um Sociedade à Deriva (leitura futura)
de Cornelius Castoriadis
-O Dinheiro Secreto dos Paraísos Fiscais (leitura futura)
de Sylvain Besson
-A Terra, Património da Humanidade (leitura futura)
de Galopim de Carvalho
-A Democracia e o Mercado (leitura futura)
de Jean-Paul Fitoussi
-O Longo Verão – Como o Clima Mudou a Civilização (leitura futura)
de Brian Fagan
-Seis Graus – O nosso Futuro Num Planeta em Aquecimento (leitura futura)
de Mark Lynas
-As Novas Teorias de Crescimento (leitura futura)
de Dominique Guellec e Pierre Ralle
Poderão encontrar na internet muitos artigos dos autores citados. Sugiro também o site da ASPO que é uma fonte de informação fundamental para as questões do pico do petróleo.
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